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Campanhas do PMDB fizeram repasses em espécie e por empresas, diz delator

Política 2 16/11/2017 às 13:43


 Em acordo de delação fechado com a Procuradoria-Geral da República, o publicitário Renato Pereira, que trabalhou para o PMDB, disse que recebeu dinheiro vivo de caixa dois nas campanhas do ex-governador Sérgio Cabral, do ex-prefeito Eduardo Paes, do atual governador Luiz Fernando Pezão, todas no Rio, e da senadora Marta Suplicy, em São Paulo.

As disputas eleitorais delatadas vão de 2010 a 2016. A delação foi tornada pública pelo ministro Ricardo Lewandowski, do STF (Supremo Tribunal Federal), nessa terça (14). Seu teor havia sido revelado pelo jornal “O Globo”.

Lewandowski devolveu o acordo à PGR sem homologá-lo, por entender que o delator teve benefícios demais. A PGR deve reanalisar o caso.

Na reeleição de Cabral, em 2010, Pereira disse que recebeu valores oficialmente e também via caixa dois. Ele contou que foi orientado por Wilson Carlos, braço direito e ex-secretário de Cabral, a procurar o executivo da Odebrecht Leandro Azevedo, que lhe pagava em dinheiro vivo. A campanha teria custado de R$ 10 milhões a R$ 12 milhões.

Para retirar o dinheiro, segundo Pereira, era preciso informar uma senha que sempre mudava –geralmente, um nome de peixe, como tainha e badejo. O relato coincide com as investigações da Lava Jato, que mostraram que o chamado “departamento de propinas” da Odebrecht operava por meio de senhas para entregas de dinheiro.

Em 2012, na campanha que reelegeu Paes prefeito do Rio, o marqueteiro disse que recebeu caixa dois da Odebrecht para pagar despesas iniciais e que, durante o pleito propriamente dito, as entregas foram feitas por Guilherme Schleder, ex-secretário da Casa Civil da prefeitura.

Segundo o delator, os encontros eram marcados em um restaurante e um posto de gasolina, de onde ele e Schleder seguiam de carro até condomínios de luxo da Barra da Tijuca (zona oeste), onde o dinheiro era repassado.

A campanha que elegeu Pezão governador, em 2014, começou muito antes do que era o normal, segundo Pereira, devido às “dificuldades de comunicação” do candidato.

A pré-campanha foi orçada em R$ 5 milhões, de acordo com o marqueteiro. O próprio Pezão teria lhe apresentado Hudson Braga, ex-secretário de Obras de Cabral, que seria o encarregado de operacionalizar os pagamentos.

Já o orçamento da campanha ficou em R$ 40 milhões, segundo Pereira, valor acertado com Cabral e Wilson Carlos. O marqueteiro disse que lhe foi proposto receber da Odebrecht no exterior, mas que, por problemas internos, a empreiteira não pagou.

Por ordem de Pezão, segundo o delator, parte do pagamento veio da Andrade Gutierrez, em transações que conferiram aparência de legalidade aos pagamentos.

Já a pré-campanha (em 2015) da senadora Marta Suplicy à Prefeitura de São Paulo, segundo Pereira, foi bancada pela CDN Comunicação.

A CDN, conforme a delação, tinha contrato com o Ministério da Cultura na época em que Marta foi ministra e devia a ela “contrapartida”. Marta disputou a prefeitura em 2016, mas perdeu para João Doria (PSDB).

Também em 2016 Pereira disse ter recebido pagamentos ilícitos pela campanha do deputado federal Pedro Paulo à Prefeitura do Rio –ele ficou em terceiro lugar.

O marqueteiro imputou ainda irregularidades ao presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf.

Pereira disse que assumiu a conta de publicidade do sistema Fiesp/Sesi/Senai em 2015 em uma licitação direcionada para sua agência, a convite de Skaf. Recebendo pela Fiesp, o delator disse que foi incumbido de fazer pesquisas e ações para promover a imagem de Skaf, que quer ser candidato em 2018.

OUTRO LADO

A assessoria do governador Pezão afirmou em nota que todas as doações da campanha foram feitas de acordo com a Justiça Eleitoral.

A Folha não localizou a defesa de Cabral. Marta Suplicy não respondeu até a conclusão desta edição.

Em nota, a CDN nega que tenha pago qualquer tipo de recompensa ou contrapartida por serviços prestados por Renato Pereira ou pela Prole. “É mentira a declaração de que sua contratação foi uma contrapartida da CDN por contrato de consultoria assinado com o Ministério da Cultura durante a gestão da senadora Marta Suplicy. O contrato com o Ministério da Cultura foi vencido licitamente numa concorrência pública sem que houvesse qualquer questionamento dos demais concorrentes ou de órgãos fiscalizadores”, diz a empresa.

Skaf disse, em nota, que a delação de Pereira não merece credibilidade. “São mentiras produzidas por um profissional que teve interesses contrariados. Seus contratos com o Sesi e o Senai não foram renovados. Ele também perdeu a licitação que disputou no Sebrae de São Paulo.”

Em nota, a Odebrecht afirmou que “está colaborando com a Justiça no Brasil e nos países em que atua”, já reconheceu seus erros e fez acordos de delação e leniência.

A Andrade Gutierrez também informou que “segue colaborando com as investigações em curso dentro do acordo de leniência firmado com o Ministério Público Federal”.

Paes disse, via assessoria, que a delação é “mentirosa e inconsistente”. “Pereira conta que o valor de R$ 25 milhões orçado inicialmente não se concretizou. O valor foi bem inferior e não houve caixa dois.”

Pedro Paulo também afirmou que os depoimentos “não merecem qualquer credibilidade”.

Os ex-secretários Braga, Wilson Carlos e Schleder não foram localizados.

Folha de S. Paulo

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